Trabalho é suporte para desenvolvimento pessoal

De barba feita, cabelo bem aparado, camisa e gravata, Vinícius Martins Araújo, 25 anos, trabalha há um ano e meio na recepção do Laboratório Delboni na Chácara Flora, em São Paulo. Recebe as pessoas que chegam à procura de informações e orienta os pacientes. Quando começou o trabalho, era difícil escutar sua voz. “Vinícius ficava encolhido com a cabeça baixa e sua voz saía bem baixinho”, lembra Miriam Brandes, coordenadora administrativa do laboratório.

Durante muito tempo, a mãe de Vinícius acreditou que seu filho era apenas um menino muito tímido. Mas há alguns anos, ele foi diagnosticado com um grau de deficiência intelectual pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae-SP). Começou então a frequentar os cursos de formação da instituição e após um ano estava empregado.

No início, o funcionário faria apenas alguns serviços básicos na recepção. Mas, com o tempo, aprendeu tarefas mais complexas. Hoje, todo o arquivo está em suas mãos. Sabe separar os diferentes tipos de exames: mamografia, cardiologia, ultrassom e raio-x. Quando o paciente chega, identifica o laudo pelo número do protocolo e, se precisar, entra no computador para puxar as informações que faltam. “Ninguém fica sem resposta”, repete ele. Vinícius já provou que sabe se virar mesmo em momentos de dificuldade do laboratório.

“Numa época enfrentamos falta de funcionários e havia muita gente na fila. Algumas pessoas foram agressivas com Vinícius. Expliquei a ele que isso poderia acontecer com qualquer pessoa. Nesse caso, ele deveria manter a calma e chamar alguém para ajudar”, disse a coordenadora. “E ele se saiu muito bem. Infelizmente, às vezes a sociedade ainda demonstra falta de preparo e preconceito com a situação”, acrescenta.

“O trabalho é um resgate da dignidade da pessoa com deficiência, que volta a ter responsabilidade pela própria vida”, afirma Aracélia Lúcia Costa, superintendente da Apae-SP. Um dos eixos desse trabalho é a inclusão profissional da pessoa com deficiência intelectual. Desde 2003, a instituição oferece cursos com duração de até dois anos, que preparam para o mercado de trabalho. Até hoje, a instituição já atendeu 2.605 pessoas com deficiência, e 90% delas saem empregadas. Desse total, 89% se mantêm no cargo por longos períodos. A instituição acredita que as oportunidades para pessoas com deficiência estão deixando de ser somente nas áreas de produção e se abrindo também no setor de serviços, como escritórios.

“É muito claro que o tema teve avanços nos últimos anos”, afirma Manuel Aguiar, coordenador do programa de Acessibilidade e Estratégia para Inclusão, da Companhia Hidroelétrica de São Francisco (Chesf). “Deixamos de ser tutelados e fomos atrás dos nossos direitos. Hoje estamos num momento de cortar o cordão umbilical e fixar as conquistas.” Na empresa há 35 anos, Aguiar tem deficiência visual desde os nove anos. A Chesf emprega hoje quase 200 pessoas com deficiência. “A meta não é bater cota, mas desenvolver um programa de inclusão com qualidade”, explica ele.

O programa leva em conta questões de mobilidade, acesso à informação e comunicação que atendam as singularidades desse público. Piso tátil, rampas nos desníveis, rotas acessíveis e elevadores são aspectos que podem garantir autonomia e segurança na locomoção desses funcionários. Durante apresentações ou reuniões há aparelhos com legendas e intérprete de libras. Material didático com dicas de convivência foi distribuído para todos os funcionários.

“Conceitualmente, a pessoa com deficiência pode exercer qualquer função, desde que esteja apta e que existam meios seguros para operar. O maior desafio é transmitir tais conceitos aos gestores. Mudar essa percepção, demanda tempo”, afirma Aguiar.

Na Whirlpool, a decisão foi adaptar postos da engenharia para as pessoas com deficiência. “E não encontrar pessoas que se adaptassem aos postos”, lembra Sérgio Silva, gerente geral de manufatura da Whirlpool Latin America, em Joinville. A empresa fez mudanças em locais que apresentavam obstáculos físicos. Na área de monitoramento de produção, cuja função é acompanhar o funcionamento das máquinas, foi desenvolvido um sistema de informática para que pessoas com deficiência visual pudessem assumir os postos. Hoje, a área opera em três turnos durante 24 horas. Das 12 pessoas que ali trabalham, três têm deficiência visual. “Foi mais difícil encontrar profissionais com conhecimento em informática do que adaptar o cargo”, garante o gerente.

Uma das maiores reclamações das empresas é a falta de profissionais capacitados. A Drogaria São Paulo deparou-se com alguns dilemas para as contratações. O caminho foi investir em parcerias com algumas instituições como a Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais (Cecae), que reproduziu um ambiente de loja para capacitar pessoas com problemas auditivos antes de começar o trabalho na drogaria, informa Fabiana Bertuzzi, gerente de responsabilidade social da Drogaria São Paulo.

No caso de deficiência visual, a drogaria tem parceria com a Associação de Deficiente Visual e Amigos (Adeva), que oferece cursos de informática com softwares adaptados para suas necessidades.

Maria da Graça opera um sistema de telefonia com uma lista de procedimentos que devem ser seguidos para resolver problemas de clientes. Ela perdeu a visão aos 23 anos e recebe as informações em áudio adaptadas à sua necessidade. “Quando cheguei para trabalhar, estava insegura. Achava que nunca poderia ter um trabalho. Hoje sinto que conquistei novamente a minha independência.”

Fonte: Giselle Paulino | Valor Econômico

Published in: on 23 de janeiro de 2012 at 17:58  Deixe um comentário  

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