Reciclagem mental

O que uma visita a um parque de elefantes na Indonésia, um passeio em um vulcão ou um curso de astronomia podem ensinar a um executivo sobre o universo corporativo? Quase nada, alguém poderia dizer. Entretanto, as experiências aparentemente pouco relacionadas ao dia a dia dos negócios vêm ganhado espaço nos programas de formação de lideranças. O objetivo é despertar nos profissionais o gosto pela inovação e pela criatividade, incutindo conceitos de gestão por meio de cursos pouco tradicionais, que incluem desde o contato com a natureza até aulas de artes e ciências.

A mudança para uma rota que, no passado, poderia ser vista como romântica e idealista faz parte de uma espécie de “crise” vivida pelos modelos tradicionais de educação executiva. De acordo com Willian Bull, consultor sênior do Instituto Pieron, as fórmulas prontas que privilegiam resultados rápidos e o pragmatismo dos cursos mais conservadores de MBA já não funcionam mais sozinhos. “Discussões relacionadas à cultura e diversidade, por exemplo, têm influenciado fortemente o ambiente de negócios. As companhias estão percebendo que as estruturas antigas não são mais suficientes para explicar esse novo cenário e passam a valorizar outros aspectos de formação”, explica.

A demanda por cursos com enfoque mais humanista começou a surgir das próprias empresas há alguns anos, estimulando instituições como a Fundação Dom Cabral a desenvolver programas inovadores. “O executivo precisa lidar o tempo todo com mudanças. O profissional com um repertório de conhecimento maior consegue fazer reflexões mais rápidas e lidar melhor com a complexidade desse universo”, afirma o professor Roberto Sagot. Aos poucos, essa visão foi sendo incorporada aos cursos corporativos customizados e ao MBA da escola de negócios.

Um exemplo é o MBA “in company” realizado pela empresa de shopping centers Iguatemi, em parceria com a Fundação Dom Cabral. O primeiro módulo do curso, direcionado a 33 executivos como parte de um programa de desenvolvimento de líderes da companhia, começou há cerca de dois meses. A decisão de montar um currículo que saísse do tradicional esquema de aulas e estudos de casos foi motivada pelo desafio de crescimento da empresa, que pretende dobrar de tamanho nos próximos três anos. “A intenção é provocar atitudes inovadoras nessa geração de gestores, tendo em vista a mudança que vai nos obrigar a pensar ‘fora da caixa’”, afirma a vice-presidente da Iguatemi, Cristina Betts.

Mesmo com duas especializações e um mestrado no currículo, o diretor regional de operações da Iguatemi, Sérgio Zukov, se surpreendeu com o conteúdo do MBA: temas como gestão, marketing e finanças foram substituídos por debates sobre estética e arquitetura. No lugar da tradicional sala de aula, a turma do executivo se transferiu para o parque da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, na zona sul de São Paulo. “Uma das primeiras discussões foi sobre o surgimento das ideias, usando exemplos como os de Galileu e Benjamin Franklin (cientistas). Foi uma experiência acadêmica diferente de tudo o que eu já tinha visto”, diz.

Na Casa do Saber, instituição que promove cursos livres em áreas como filosofia, artes e cultura, a experiência com programas sob medida para executivos de empresas existe desde 2004. Segundo Mario Vitor Santos, sócio da escola, as primeiras parcerias foram com as multinacionais e os bancos, mas hoje companhias de diversos setores têm demandado palestras e cursos com foco no enriquecimento cultural e na motivação de seus líderes. “A filosofia é o oposto da fórmula da autoajuda. Ela questiona, em vez  de oferecer soluções, e isso leva o profissional a agir de forma criativa e proativa”, diz.

Uma das parcerias da Casa do Saber é com o Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados, que desde 2008 promove palestras “in company” para grupos de até 70 profissionais. Os temas vão desde cinema e política até qualidade de vida e sustentabilidade. De acordo com Eloah Teixeira, membro do comitê de qualidade profissional do escritório, o objetivo é incrementar a formação cultural dos advogados, uma vez que o relacionamento próximo com os clientes exige conhecimentos que vão além das especificidades do direito. A iniciativa deu certo e as aulas têm sido um sucesso. “Eles (advogados) fazem reserva antecipada de vagas, sugerem assuntos e pedem o retorno dos palestrantes de que mais gostaram”, conta Eloah, revelando que os cursos sobre cinema são os preferidos.

O sócio da banca José Samurai Saiani, admirador da sétima arte, é um dos que participam dos encontros desde o início. Apesar de ser fã das palestras sobre filmes, ele afirma que os cursos de história do vinho, mitologia e amor no século XX estão entre os seus favoritos. A participação e o envolvimento nos eventos evoluíram com o tempo e hoje Saiani é um dos responsáveis por escolher os temas de alguns encontros, que são realizados de quatro a seis vezes por ano. “São momentos em que conseguimos integrar a equipe e, ao mesmo tempo, promover a formação humanista tão necessária à nossa profissão”, afirma.

Na opinião do consultor João José Lannes, fundador da Cauax, empresa de treinamento e pesquisa em gestão empresarial, a preocupação das companhias com a formação cultural de seus executivos é motivada por um “apagão do conhecimento” vivido pelo mercado. A alternativa encontrada pelas organizações, segundo ele, tem sido complementar à formação de seus profissionais – especialmente os de alta performance. “A tecnologia estimulou novos processos, formas de relacionamento e demandas por parte das pessoas. O executivo está mais antenado e boa parte da sua motivação é atrelada ao que ele pode aprender naquela empresa”, comenta.

Este é o caso de Danielle Fantossi, executiva da área de tesouraria do Santander. Ela começou a fazer os cursos em parceria com a Casa do Saber em 2007, ainda como funcionária do Banco Real. Desde então, já participou gratuitamente de dez programas, abrangendo assuntos tão diversos quanto moda e astronomia. “Costumo dizer que os cursos são parte do meu pacote de benefícios”, brinca. Os ganhos, porém, não se restringiram ao aprendizado e à integração com a turma. De acordo com ela, já resultaram em negócios para o banco. “É natural conhecer gente de diferentes áreas, e isso ajudou a construir um networking interessante e útil para o meu trabalho.”

O contato com uma realidade totalmente diversa é um dos aspectos mais marcantes do Global Management Program, especialização lato sensu que levou um grupo de executivos em setembro para uma experiência de duas semanas em Bali, na Indonésia. Promovido pela Universidade Quantum, instituição que oferece cursos de formação continuada com uma visão holística, o programa une conceitos e práticas empreendedoras a atividades de lazer e autoconhecimento. Enquanto parte do dia é dedicada às aulas em um ambiente mais formal, outro período é voltado para atividades turísticas, culturais ou de reflexão pessoal. Além disso, usam-se exemplos da sociedade balinesa para discutir temas atuais no mundo corporativo. A programação incluiu também visitas a um parque de elefantes e a um vulcão. “Todos os momentos são repletos de aprendizado”, afirma Claudia Riecken, presidente do grupo Quantum. “Observar uma sociedade tão única ensina sobre aspectos como gestão da mudança, diversidade e resistência à pressão.”

Sagot, da Fundação Dom Cabral, acredita que as empresas têm compreendido melhor o conceito de visão holística – que, em um primeiro momento, era mais restrito ao impacto das decisões de uma área sobre o restante do negócio. “Hoje, ela diz respeito também à abertura do profissional para outros saberes e à qualidade de vida no trabalho, por exemplo.”

A própria escola de negócios, motivada pela boa recepção entre as empresas, decidiu promover um evento totalmente dedicado ao tema. Realizado em setembro, o FDC Experience reuniu 380 executivos no campus da instituição, em Minas Gerais, em um encontro de dois dias. O objetivo foi levar os participantes a desenvolver a criatividade e estimular a curiosidade em um espaço mais próximo de uma exposição de arte do que de uma sala de aula. “A discussão sobre gestão acontece, mas integrada a temas como gastronomia e história”, ressalta Sagot.

Willian Bull, do Instituto Pieron, alerta, no entanto, que os programas com uma visão mais generalista não reduzem a importância do treinamento convencional. “Nesse momento de escassez de talentos, a formação técnica e gerencial continua sendo essencial para as empresas.”

Fonte: Vívian Soares / Valor

Published in: on 10 de outubro de 2011 at 19:37  Deixe um comentário  

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